o espalhador de esperança

Não sei definir com exatidão o que é um líder. Só sei que um líder sabe que mesmo nas situações mais difíceis é necessário manter alguma esperança nas suas hostes. É preciso sentir que vale a pena. Esta história acaba por refletir a escolha que cada líder tem que fazer em cada momento da sua vida.
O hospital de campanha
Era uma vez… Um hospital de guerra, em que as condições eram deploráveis. Tinha sido aproveitado um edifício antigo com condições desumanas para o hospital. A situação era extremamente complicada com os alemães, que tinham uma enorme capacidade militar, a destroçar tudo por onde passavam.
Havia vários feridos e tinham que se colocar nos locais onde podiam, alguns em camas de campanha, mas a maioria onde podiam. Os lugares eram ganhos e depois de se ficar com um lugar, dificilmente era retirado. Quando alguém saia, fosse por que motivo fosse, havia movimentações na tentativa de melhorar a posição de cada um. O major Muxagata estava, desde o início da transformação daquele local em hospital, em recuperação e tinha ganho o direito de ficar com um lugar que permitia ver o exterior. Era um homem de poucas falas, mas que partilhava o que ia vendo com os seus companheiros de infortúnio. Não se podia dizer que aquele hospital fosse um sítio com grandes motivos para sorrisos, e por esse motivo, a hora de maior movimento no exterior era aguardada com grande expectativa. Havia sempre acontecimentos novos e os barulhos exteriores eram suficientes para deixar todos completamente atentos como crianças à espera da hora do conto.

O coronel de poucas falas descreve o exterior
O major Muxagata dizia: “ O rapaz hoje está vestido com um fato e leva uma rosa à sua namorada! Ela está a olhar envergonhada para ele! É pá! Brindou-o com um beijo como há muito que não via! Ele está derretido! Tem um sorriso de orelha a orelha. Este romance vai dar em casório!”
Ou ainda: “O tipo vai de bicicleta a uma velocidade impressionante, não sei o que se passou, mas vêm 2 sidecars atrás dele. Parecia que o iam apanhar, mas ele deitou um toldo abaixo e ganhou mais tempo! Oh não! Espalhou-se contra a banca do peixe! Parece não estar bem tratado! Ainda vai ser nosso vizinho!” E respondia às solicitações: E os alemães apanharam-no? Infelizmente sim? Estão a colocar-lhes as algemas! Olha, olha! Uma carrinha de caixa aberta a grande velocidade! O que é que estes querem? Estão a dirigir-se para eles a alta velocidade! Atiraram os alemães ao rio e estão a apanhar o tipo! Estão todos a fugir a grande velocidade” E todos gritavam: “Viva!, Hurra! Viva!”
E assim se passavam dias a fio com as descrições pormenorizadas dos acontecimentos da cidade dentro dos limites da vista do Muxagata! “O maluco desta vez ganhou uma nota!”; “Boa!” respondiam. “A menina da mercearia fica cada dia mais bonita, cada vez mais sensual!” “Ahhhh!, como gostaria de ver o seu rosto mais perto!”
Os dias passavam com todos na expectativa dos acontecimentos da tarde, quando havia mais movimento e era aquele momento que permitia que muitos deles ficassem pelo estado pré-depressivo, e os ajudava a recuperar das mazelas mais ou menos graves.

Adeus coronel!
Até que o dia chegou… O coronel Muxagata ia para casa, já não estava em condições de voltar à guerra, pelo que teria que regressar à sua terra.
Claro que houve logo movimentações para ver quem ia ficar com aquele lugar de destaque, e que permitia ver o exterior e tudo o que se passava no exterior. Depois de negociações intensas, ficou definido, sem unanimidade e provisoriamente, que seria o cabo Todo-Bom a ficar com o lugar.
No dia da passagem de testemunho, e depois das limpezas necessárias, a “tomada de posse” do lugar pelo cabo, coincidia com o momento em que o exterior estava mais ativo, pelo que todos tinham grande expetativa para ouvir o relato do dia.
Todo-Bom subiu ao seu lugar convicto da importância do seu lugar, não só pelo estatuto associado, mas também pela responsabilidade de manter alguma esperança em pessoas que pouca esperança tinham. Todo-Bom ficou perplexo, sem pinga de sangue e sem capacidade de falar. À sua frente um sujo e descascado muro branco!




Outra história de liderança que me agrada particularmente: o mestre arqueiro
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