Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Midões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Midões. Mostrar todas as mensagens
Oficina de Escrita Criativa I - Iniciação
Etiquetas:
Bairrada Tv,
Escrever,
Escrita,
Escrita Criativa,
Guinimo,
Jornalismo,
Living Place,
Mealhada,
Miguel Midões,
Rádio Província,
Travasso,
Vacariça
Reformar a idade da reforma... e as exceções!
A idade da reforma vai passar (em 2014) para os 66
anos e o tema deixa-me duplamente a pensar. Primeiro, porque no alto dos meus
31 anos tento avistar o futuro e a névoa lá longe não me deixa observar qual será
a idade da minha reforma, nem quantos anos terei eu que trabalhar e descontar
cada vez mais, para que, em 2040 tenha direito a “qualquer coisita”.
Infelizmente sou daqueles que acha que a meio da
minha “maratona” isto há de dar o “crash” e quando for “Senhor Merecedor de Qualquer
Coisita” não haverá nada para mim. Por isso, nada melhor do que começar a
precaver. Mas, e da maneira que estão os bancos, voltarei com certeza à velha
técnica de guardar debaixo do colchão. Isto no dia em que conseguir começar de
novo a poupar.
Em segundo lugar, assusta-me quando entramos no
capítulo das exceções. Não quero com isto dizer que seja injusto a exceção para
camionistas, pilotos e até as bordadeiras da Madeira (por quem tenho o meu
maior respeito). Contudo, e novamente apenas no alto dos meus 31 anos (muito
tenho ainda para aprender e crescer), assusta-me o diminuto leque de exceções e
creio que, assim à partida, me lembraria de mais três ou quatro casos de
possíveis exceções.
Mas, vou apenas dar como exemplo o percurso profissional da
minha própria mãe. Foi empregada de mesa durante 26 anos, carregando travessas,
caçoilas de barro, mesas, cadeiras… horas a fio em pé e como resultado teve:
coluna completamente torta, três operações às varizes, tendinites nas mãos.
Motivos mais do que suficientes que a levaram a deixar a hotelaria. Contudo,
hoje, e com apenas 52 anos (sim, porque esta é a idade das avós dos meus
filhos. Avós que ainda têm muito que contribuir para a Segurança Social), é já
há cerca de sete anos auxiliar num centro de dia, tendo como sua principal
função a de transportar, alimentar e cuidar dos idosos e dos seus afazeres. E é
aqui que me cabe mais uma questão: quando a minha mãe tiver 66 anos e ainda
obrigação legal de estar a trabalhar, que diferença existe entre a minha mãe
com 66 e o idoso com 67 que ela terá de acompanhar até casa, carregando os seus
sacos, lavar e deitar na cama, a quem terá de servir a refeição, entre outros.
Isto, se na altura da reforma da minha mãe a idade
não tiver já aumentado um pouquinho mais…
Por isso, quando me falam em exceções, não consigo
evitar que me venha à imagem a minha mãe, com a coluna completamente destruída,
as pernas a doer e as mãos praticamente sem mexer, no alto dos seus 66 anos (ou
mais) a sair da carrinha que hoje conduz, a puxar das moletas que estarão entre
o acento e a porta e a tentar equilibrar nas moletas: a comida, os afazeres do
idoso e claro o próprio velhinho. O que mais me custa é que conhecendo a minha
mãe como conheço fará tudo isto de sorriso no rosto!
O Hércules da fraqueza
Hoje quando lia a edição on line do Expresso foi inevitável a vinda à memória da expressão que a minha avó materna tanta vezes utilizou para me caracterizar quando estava a tentar fazer alguma coisa avançada demais para a minha idade. Ou quando simplesmente me mostrava (pela oratória) mais forte do que aquilo que era realmente. Ou quando me fazia de “valentão” e tentava alcançar o inalcançável. Perante qualquer um destes três cenários, a avó Milinha dir-me-ia: “Pareces o Hércules da fraqueza!”
Nesta mistura de metáfora com antítese, a minha avó queria mesmo dizer-me que estava no bom caminho para alcançar alguma coisa, mas que na verdade era ainda prematuro dizer que o iria conseguir num futuro próximo, o mesmo é dizer em curto espaço de tempo.
Hoje lia então na edição on line do jornal Expresso: “Na abertura das jornadas parlamentares conjuntas do PSD e do CDS, o vice-primeiro-ministro elogiou o esforço "hercúleo, digno e doloroso" dos portugueses”. Palavras de Paulo Portas para esclarecer (ou não) o povo que "é possível que Portugal esteja a poucas semanas de saber oficialmente que saiu de uma recessão técnica que durou mil dias", o que "tem uma tradução, a prazo, na vida das pessoas".
Ora, se fosse eu, Miguel Midões, a chegar hoje a casa da avó Milinha e dissesse tamanha afirmação à mesa do jantar. No meio de toda a sua serenidade, a avó Milinha dir-me-ia: “somos o hércules da fraqueza! Achas mesmo que vamos sair da recessão? Tens fé nisso?”
Caso levasse a minha convicção adiante e lhe apresentasse ainda mais alguns argumentos do nosso vice-primeiro ministro e lhe dissesse que "a maioria dos portugueses tem sabido enfrentar as dificuldades" e que isso tem ajudado o país a sair da recessão. Depressa a avó Milinha ir-me-ia lembrar do aumento esperado com as despesas do governo para 2014, ou não fosse o governo ter aumentado significativamente de elementos. Dir-me-ia na sua gíria: “esses papões! Estão lá é para nos comer as papas na cabeça!”.
Então se lhe dissesse que "a austeridade é uma consequência do resgate e não uma escolha", a avó Milinha diria, com toda a certeza “estás perdido meu amor. Deixaste-te perder. Então interessa-me lá se foi uma escolha ou se foi a consequência de um resgate. O que eu sei é que a minha reforma, que nem chega a 300 euros, mal dá para eu comer. O que eu sei é que só na farmácia deixo tanto em medicamento quando de reforma ganho e que o que me vale é a reforma do teu avô que passa ligeiramente os 300 euros. Sim, e vale-me o facto de ainda termos umas hortas e umas árvores de fruta!”
Remataria, com certeza, “como hercúleos somos, meu amor! Mas, somos os hercúleos da fraqueza! E Eles?”
Os selvagens!
No domingo, depois de arrumar a cozinha, em vez da
habitual paragem no sofá para fazer zapping pela deprimente televisão nacional
(ao domingo à tarde) decidi que haveria de ir levar a reciclagem ao centro da
vila do Luso.
Esquecendo-me de que era domingo, depois de “despejada”
a reciclagem no seu devido lugar, decidi que iria à Fonte de São João encher
cinco garrafões de água, apenas cinco.
Ao leitor do Luso passo a explicar as razões porque
fui à fonte buscar água (não é muito habitual ver por lá alguém do Luso):
1º - a água de minha casa é de furo e prefiro beber a
da fonte (questões de segurança);
2º - é mítico o gesto de ir à fonte buscar água;
3º - curiosidade em apreciar a fonte num domingo à
tarde.
Não era verão, mas o tempo estava ameno.
Cheguei com os meus cinco garrafões na mão e havia…
FILA!
CONSTATAÇÕES:
1.
Eram imensos os rótulos espalhados pelo chão e
presos nas grades por onde escorre a água;
2.
As pessoas acotovelavam-se para encher mais
garrafões que o vizinho e havia mesmo quem estivesse com garrafões em três
bicas. Ou seja, duas mãos a controlar três garrafões a encher de cada vez;
3.
Os garrafões vazios que estavam à espera de
encher (à exceção dos meus) eram de todas as marcas menos do Luso ou do
Cruzeiro. Reinava Mini-Preço, Continente e Pingo Doce;
4.
O que mais se ouve é: “Leva, leva! Ali, ali…
corre! Vai ao carro, mas vai depressa e volta para buscar mais!”
Embora estagnado, perplexo e até um pouco anestesiado
com tamanha insensatez, continuei impávido e sereno a assistir à “comédia” até
que fui “ultrapassado”. Do alto dos seus sapatos altos e das suas gangas
justas. A senhora que desceu as escadas apressadamente, em jeito de corrida,
olhando para trás e dizendo ao marido barrigudo e de bigode que corresse, não
viu a fila, não respeitou a espera dos outros e com sorrisinho malandro (à
tuga) esgueirou-se para a bica que há 2 segundos tinha ficado livre. A bica que
era (ou ia ser) minha!
O cúmulo: olhou para mim, de alto a baixo. Virou a
cabeça ao chão. Não satisfeita, voltou a olhar para mim e de novo o sorrisinho
malandreco a dizer-me: “fui espertalhona!”
A isto apenas consegui abrir a boca e responder: “nunca
viu um fato de treino com um homem lá dentro?”
Fiquei incrédulo. O senhor de bigode lá chegou.
Esperou que os garrafões enchessem. Arrancou o resto de um rótulo que já estava
pendurado, deitou-o ao chão e acartou com os garrafões. Os saltos altos
seguiram-no, não sem antes voltar a dar o sorrisinho maroto ao tipo de fato de
treino: “fui espertalhona!”
Enchi os meus garrafões e no caminho para casa vinha
a pensar em ideias (perigosas) para solucionar tamanha insânia na fonte de São
João, no Luso. Aqui ficam algumas dessas ideias (perigosas ou estúpidas):
1.
Criar um cerco à fonte e colocar um fiscal que
atribuiu senhas aos “esfomeados por água” e um número mínimo de garrafões a
encher. Mas, quem pagaria este senhor? A junta, a câmara, os parquímetros que
não existem nos estacionamentos que circundam a fonte, etc…
Este mesmo
fiscal aplicaria multas a quem deixasse rótulos no chão ou garrafas e garrafões
abandonados…
2.
Libertar duas bicas (as das pontas, por exemplo)
para que os turistas possam encher a sua garrafa e/ou beber água na palma da
mão;
3.
Obrigar os “esfomeados por água” a receberem
cinco minutos de formação de boas maneiras, valores e boa educação.
Esta última será, sem dúvida, a mais necessária, mas
aquela que deveria também ser a mais dispensável, porque afinal de contas todos
devemos ir adquirindo, à medida que crescemos, boas maneiras, valores e boa
educação.
As ideias são perigosas, mas alguma coisa há a fazer
naquele local. Quem tiver ideias melhores que as apresente e as implemente.
A grande conclusão que tirei, e com efeitos imediatos
a partir de agora: seja verão ou inverno, ir buscar água à Fonte de São João,
no Luso, para beber em casa, nunca ao domingo e sempre depois das 20h.
Para ver selvagens, escolho outro sítio!
Subscrever:
Mensagens (Atom)

