O Hércules da fraqueza


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Hoje quando lia a edição on line do Expresso foi inevitável a vinda à memória da expressão que a minha avó materna tanta vezes utilizou para me caracterizar quando estava a tentar fazer alguma coisa avançada demais para a minha idade. Ou quando simplesmente me mostrava (pela oratória) mais forte do que aquilo que era realmente. Ou quando me fazia de “valentão” e tentava alcançar o inalcançável. Perante qualquer um destes três cenários, a avó Milinha dir-me-ia: “Pareces o Hércules da fraqueza!”

Nesta mistura de metáfora com antítese, a minha avó queria mesmo dizer-me que estava no bom caminho para alcançar alguma coisa, mas que na verdade era ainda prematuro dizer que o iria conseguir num futuro próximo, o mesmo é dizer em curto espaço de tempo.


Hoje lia então na edição on line do jornal Expresso: “Na abertura das jornadas parlamentares conjuntas do PSD e do CDS, o vice-primeiro-ministro elogiou o esforço "hercúleo, digno e doloroso" dos portugueses”. Palavras de Paulo Portas para esclarecer (ou não) o povo que "é possível que Portugal esteja a poucas semanas de saber oficialmente que saiu de uma recessão técnica que durou mil dias", o que "tem uma tradução, a prazo, na vida das pessoas".

Ora, se fosse eu, Miguel Midões, a chegar hoje a casa da avó Milinha e dissesse tamanha afirmação à mesa do jantar. No meio de toda a sua serenidade, a avó Milinha dir-me-ia: “somos o hércules da fraqueza! Achas mesmo que vamos sair da recessão? Tens fé nisso?”

Caso levasse a minha convicção adiante e lhe apresentasse ainda mais alguns argumentos do nosso vice-primeiro ministro e lhe dissesse que "a maioria dos portugueses tem sabido enfrentar as dificuldades" e que isso tem ajudado o país a sair da recessão. Depressa a avó Milinha ir-me-ia lembrar do aumento esperado com as despesas do governo para 2014, ou não fosse o governo ter aumentado significativamente de elementos. Dir-me-ia na sua gíria: “esses papões! Estão lá é para nos comer as papas na cabeça!”.

Então se lhe dissesse que "a austeridade é uma consequência do resgate e não uma escolha", a avó Milinha diria, com toda a certeza “estás perdido meu amor. Deixaste-te perder. Então interessa-me lá se foi uma escolha ou se foi a consequência de um resgate. O que eu sei é que a minha reforma, que nem chega a 300 euros, mal dá para eu comer. O que eu sei é que só na farmácia deixo tanto em medicamento quando de reforma ganho e que o que me vale é a reforma do teu avô que passa ligeiramente os 300 euros. Sim, e vale-me o facto de ainda termos umas hortas e umas árvores de fruta!”

Remataria, com certeza, “como hercúleos somos, meu amor! Mas, somos os hercúleos da fraqueza! E Eles?”
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