TIM: o engano dos ovos moles emigrantes


Antes da partida
O Joca tinha decidido ir a França visitar a família e ver como estava o mercado de trabalho por lá. Emigrar era uma opção que tinha que considerar na sua análise ao futuro profissional.
Qualquer visita à familia que tinha deixado a praia lusitana, implicava levar iguarias. Assim, pelo menos a primeira refeição passava-se a recordar belos momentos de tempos idos acompanhados de sabores tradicionais e com um vinho ou uma cerveja a acompanhar. A mesa era o altar da familia. Nem sempre sagrada, mas era o local de culto onde serenava a ansiedade pelas histórias lusas e onde a força das emoções mais se fazia sentir.  Surgia sempre a lágrima no canto do olho. No entanto, a expetativa de iguarias à mesa, fazia com que a escolha pelos produtos fosse uma tarefa de responsabilidade muito superior ao que à primeira vista poderia parecer.

As últimas notícias a que tinha tido acesso, conservação dos ovos-moles é afinal um ovo de Colombo, e passaporte para os ovos moles!, fizeram com que este problema fosse resolvido de forma rápida e sem margem para qualquer dúvida. Ovos moles seria a sobremesa promotora da saudade e da lágrima do dia.

Depois da chegada
Os primeiros momentos noutro país, eram sempre difíceis. A língua era estranha, e mais estranho era todos falarem a língua estranha, como se para eles não o fosse. Os cheiros eram diferentes e não ajudavam a sentir-se em casa. Por isso, irem buscá-lo ao aeroporto, era a melhor receção que podia ter. Não entrava de chofre em contato com um mundo novo, e poderia habituar-se de forma gradual.

Chegados a casa, as coisas não foram diferentes do que se imaginava. As lágrimas que já tinham começado no aeroporto, acompanharam todo o jantar. No final, os ovos moles foram degustados num misto de sofreguidão e consciência de que seria melhor deixá-los durar mais, para que a saudade fosse minimizada durante um maior período de tempo. Crianças e adultos estiveram ligados à praia lusitana de uma forma intensa durante todo este dia de receção. Agora, chegava a hora de dormir. Os de lá, tinham que trabalhar ou cumprir as suas obrigações de estudantes. O Joca, tinha os seus dias planeados, para aproveitar o máximo possível o seu tempo em visitas a monumentos, nunca esquecendo o objetivo principal da sua ida.

O pesadelo
Mas a noite trouxe dissabores. A Joana teve fortes dores de barriga e foram todos para o hospital. Os sintomas apareciam de forma leve a outros elementos da família, mas a Joana estava dobrada e não se conseguia mexer. Apenas a aliviava o saco de água quente que alguém se tinha lembrado de levar. Só conseguia estar dobrada. As dores eram insuportáveis. Rapidamente concluiram que só podia ser dos ovos moles. Os restantes elementos da família começavam a aperceber-se de alguns dos sintomas. Embora nenhum pudesse dizer que estava com dores, todos tinham a clara noção de que as dores também os apoquentariam. Era apenas uma questão de tempo.

Fizeram de imediato uma lavagem ao estômago a todos. As sondas orogástricas foram poucas para as necessidades. Mas valia a pena prevenir, porque passado algum tempo, este procedimento deixaria de fazer sentido. Depois de descansarem um pouco, e da Joana ter estado a soro durante 2 horas, lá puderam ir para casa, esgotados e com um ar cadavérico. Uma noite de sonho rapidamente transformada em pesadelo. Digna de Freddy Krueger.

Injustiças e preconceitos
Ainda estavam todos a dormir, quando tocaram à campaínha:
- Queria saber se está tudo bem com a Joana! Houve uma intoxicação alimentar provocada pelas natas do almoço de ontem, e esta manhã já deram entrada no Hospital vários alunos!
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