PEDIR AJUDA OU SER AJUDA?


A felicidade é feita de alegrias e tristezas. É o que brota de um coração que, ao bater, transborda de amor. Julgar que uma vida boa corresponde a uma existência sem sofrimentos é não compreender a essência da vida, esquecendo-se de um dos seus pilares fundamentais. É verdade que ninguém deseja a dor... e, no entanto, sem sofrimentos, quem é que desejaria a felicidade? Quem é que estaria disposto a persegui-la, sofrendo também por (ainda) não ser feliz?

Amar é dar e aceitar o que o mundo e os outros puderem e quiserem dar... Poderá ser pouco... ou nada até... Em qualquer caso, é sempre melhor dar do que receber. Só é carenciado quem se faz dependente da generosidade alheia. 

O contrário da felicidade é o medo. Um vazio que, em luta constante, nos destrói a partir de dentro, cavando em nós. Ser feliz passa por ir além do medo, preenchendo os vazios com as alegrias e tristezas, respondendo-lhe com a certeza da esperança. Temer, sofrer, mas sorrir. Uma harmonia de equilíbrios. 

Um sorriso é a melhor forma de amparar as lágrimas. 

Amar é uma imensa gratidão do coração. A vida é um dom. Um milagre. Amar será a resposta à graça original de podermos estar aqui, hoje mesmo, agora, assim... Uma bondade e generosidade imensas que devemos fazer chegar à vida dos outros. Sendo que a minha bondade não depende da pobreza dos outros, mas tão-só da minha verdadeira riqueza.

A verdadeira riqueza não está no que se tem, por que isso se vai perder (mais tarde ou mais cedo), mas no que se é e que, por isso, se pode dar. 

Só quem escolhe ser bom se dá aos outros, porque reconhece em si um valor, uma luz única da qual os outros podem ser carentes. Mas a minha bondade só poderá realizar-se se eu assim escolher, se eu arriscar o fracasso de dar um passo adiante, apesar do medo... a responsabilidade de escolher quem é mais forte: a minha vontade de ser feliz ou o medo.

O desejo consome-nos. Ser feliz passa por ser capaz de dominar e diminuir os desejos. Quando se deseja muito, ainda que a vida, o mundo e os outros, sejam generosos, tudo parece pouco. Pobres e desgraçados são aqueles que têm muito e isso não lhes chega, e ricos serão aqueles que lhes basta e sobra do pouco que têm... 

É, pois, essencial compreender que a minha felicidade depende do que eu decidir desejar. Para os infelizes o valor está no que não têm... 

Muito do que somos não é obra nossa. Mas o essencial é. Esta escolha fundamental entre valorizar ou desvalorizar o que se tem e o que se é... ser feliz é construir um caminho e percorrê-lo, não é um destino nem o destino, é uma escolha. Dura. Que se estende no tempo. Uma luta contra os dias de euforia e contra as noites de desespero. Aceitando, sempre e sem medo, que se pode perder o que de melhor hoje está aqui... 

Ser feliz é ser capaz de criar e alimentar a alegria verdadeira que brota do próprio coração que ama. Uma gratidão pela existência. Um sorriso pela vida. Que serve aos outros, dando-lhes o amor e a alma que lhes pode estar a faltar... 

A nossa existência é um sopro que nos chega do alto sem pedir nada em troca. Que importa pois que não compreendamos o sentido exato de tudo? Nada. Desde que saibamos reconhecer o valor absoluto da nossa própria vida, com cada uma das alegrias e tristezas... desde que lutemos por ser bons, felizes... por merecer estar aqui. 

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jornal i
7 junho 2014
Ilustração de Carlos Ribeiro


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